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quarta-feira

Aceito!



Hoje experimentei a sensação de ser aceito. Recebi dele uma energia única, jamais experimentada. É receber da vida um presente divino, onde as energias são superiores, e como se o patamar físico da esfera carnal fosse apenas parte de um processo. É como um tapa da vida falando: “tá de sacanagem?! Deixa, vai!”. Um tapa da vida trazendo surpresas. Uma sensação única, que só o HIV traz. 

- Isso nunca aconteceu comigo. Acho que nunca fiquei com alguém com HIV, pelo menos não que eu saiba. Você é especial e tenho certeza que isso te faz crescer.

Beijos, abraços, carinhos e otras cositas más.

Como isso aconteceu comigo, e sei bem a pessoa que sou, não podia passar sem lágrimas; não de tristeza. De luz, de alegria... de elaboração. Lágrimas que externalizavam uma “rejeição” que estava presa e no fundo sempre me corroeu; principalmente por crer nela a única possibilidade.
Enquanto  ser rejeitado é uma das piores sensações que alguém pode viver (é como se você se tornasse um vírus momentâneo, que a qualquer momento pudesse se espalhar no outro), ser aceito é aceitar uma luz, energia única, poucas vezes experimentada. Plenitude.



 - Boto fé, cara!
 

Obrigado por hoje, obrigado por essa sensação, obrigado por essa vida! Axé!

Contando tempo

Sempre que me proponho a contar para alguém próximo a sorologia, fica um sentimento muito ruim. Esse sentimento dura alguns dias e é como se eu tivesse que lidar novamente com um processo de descoberta. A descoberta do outro.
É sempre difícil, não importa a situação, falar sobre o HIV e questões relativas à contaminação.  Ontem falei para mais uma pessoa. Ultimamente ela tem sido a única pessoa, juntamente com minhas sobrinhas, que consegue me transmitir alguma motivação para viver. Sinto uma energia muito boa que vem da mesma. Compartilhei pensando que desta forma pudesse auxiliá-la a lidar com uma situação difícil. Grande engano... agora ela terá que lidar com duas situações difíceis.
A verdade é que nestes últimos dias tenho sofrido muito. Minha instabilidade emocional tem me corroído e pouco desejo e energia de vida têm restado dessa confusão.
Os medos que cercam o processo de contar são os mesmos que me motivam a ficar protegido numa bolha, fora do contato social. Lamentavelmente isso não é possível, embora eu acredite que seria muito mais fácil. O ser humano é, por natureza, um ser sociável.
Ela falou palavras bonitas que lamentavelmente não fazem muito sentido pra mim. Vejo tantos relatos de pessoas que começaram uma “nova vida”, buscaram viver intensamente cada instante. Comigo tem sido diferente. Não consigo ver nada de positivo que não seja a própria presença do vírus. Não me tornei uma pessoa melhor, não sou mais feliz, não vivo intensamente, nem mesmo tenho tido desejo de viver.
A minha esperança é que essas sensações sumam de minha vida em duas horas e eu tente prosseguir a sobrevida, como lamentavelmente tem sido cada letra dessa palavra. Amanhã talvez a tristeza volte e o blog continua como válvula de escape. Enquanto houver sobrevida esperança. Esperança no tempo, "compositor de destinos"!


domingo

Certo e Errado

As sete da manhã, virado numa sala de bate papo. Ihhhh... Onde você quer chegar com isso?

A idéia era apenas realizar um desejo sexual contido numa noite de boemia. Nem estava disposto a ter um encontro pessoalmente, mas apenas viajar na fantasia.

Conversamos, muito papo, e resolvemos então ligar a cam. Foi supresa. Atração física a primeira vista. Fato que, convenhamos, não é tão raro de acontecer, né?! Mas é bom sempre ter em mente a velha propaganda da sprite: "imagem não é nada, sede é tudo, obedeça sua sede. Eu obedeci a minha. hehehe

O papo foi muito legal, muito além de sexo. Resolvemos, então, marcar um bate-papo para o dia seguinte. Conversamos muito e tomamos um café em uma padaria próximo a nossa casa. Nossa? Você pensou que eu já casei, né?! Pois é, eu tb, hehehehe. Calma gente... pois é... é meu vizinho. Mora há  poucos metros de mim.

Cara de sedutor, alto (tenho tara por homens altos), inteligente. Meu erro? Claro: sexo no primeiro encontro. Por mais que pretendesse segurar a vontade, não deu... ou melhor, deu - literalmente. hehehe

Aguardando os próximos passos. Acho que já é meu terceiro pretendente apenas neste início de ano. Será que chegarei em algum lugar? Por que essa busca sem fim? Por que não há o encontro da batida perfeita?

Parafrasando o velho ditado... Não quero mais me divertir com os errados... agora quero o certo.


Sabrina concordo com quase tudo. Mas chega de chapa quente, né?! Por uma "pacificação" com respeito a cultura do funk!

quinta-feira

Re-lações

Interessante como o tempo passa. Mais interessante ainda é como a gente passa o tempo. Nesse processo de aceitação (ou seria imposição?) de doença crônica em minha vida muita coisa tem mudado. Interessante esse olhar sob novas perspectivas. De uma certa forma é olhar a vida através da morte. Não. Não estou sendo pessimista.
Hoje mais uma vez o HIV/AIDS foi tema central no meu trabalho. To tirando de letra. Acho que vou acabar trabalhando nessa área um dia. Mas voltando... (fuga do tema é zero na redação).
Tenho me aproximado mais de minhas sobrinhas e isso tem sido lindo. Percebi já fazia tempo que não passava um momento com  elas; não falo de corpo, mas de presença mesmo. Lembro sempre do beijo técnico e um “como vai a escola?” tão técnico quanto, mesmo (ou pior) sendo semanal.  A mais velha comemorou seu aniversário na escola e insistiu muito para que eu fosse.  Adiei minha viagem por algumas horas e foi perfeito olhar a cara dela de satisfação. Me vi um tio presente. Coisa simples e que não tem preço (para todas as outras existe mastercard. Sei que é piada sem graça, mas foi mais forte que eu). Tocou Lady Gaga na festa... percebi o quanto estou velho.
O bichinho que me come todo dia (sem duplo sentido por favor; humm, duplo sentido até que não é má idéia) tem me causado coisas boas também. Sempre o culpei tanto. Acho que é hora  de dar a César o que é de César. Essa história de comer, dar... melhor eu mudar essa prosa. Isso pode não acabar bem, se acabar bem...  camisinha! RS
O fato é que tenho valorizado mais pessoas que amo. Recentemente um amigo fez uma série de críticas ao meu jeito de ser e de me relacionar com as pessoas, me acusando de egocêntrico. Me senti mal com suas palavras, mas percebi que ele estava parcialmente certo. Digo parcialmente pois sei que em muitos momentos não dou  atenção merecida a algumas pessoas.... mais por descuido do que por egocentrismo. Por outro lado percebo que me dedico demais as pessoas com a qual me relaciono no trabalho e  me preocupo muito com os sentimentos dessas pessoas. Tenho medo demais de ferir as pessoas que amo. Percebo que tenho feito isso com algumas, mas não é intencionalmente. Me arrependo muito de ter falado para uma pessoa do HIV. Sinto que ela não consegue lidar bem com isso e fico triste quando percebo que a deixei mal desnecessariamente.
Vou seguir cultivando meus amigos, minha família, minhas relações, e meus amores (não sei o porquê do plural, não existe nem o singular ainda, RS). Amigos, me perdoem pelos erros e obrigado por vocês existirem.