Sempre que me proponho a contar
para alguém próximo a sorologia, fica um sentimento muito ruim. Esse sentimento
dura alguns dias e é como se eu tivesse que lidar novamente com um processo de
descoberta. A descoberta do outro.
É sempre difícil, não importa a
situação, falar sobre o HIV e questões relativas à contaminação. Ontem falei para mais uma pessoa. Ultimamente
ela tem sido a única pessoa, juntamente com minhas sobrinhas, que consegue me
transmitir alguma motivação para viver. Sinto uma energia muito boa que vem da
mesma. Compartilhei pensando que desta forma pudesse auxiliá-la a lidar com uma
situação difícil. Grande engano... agora ela terá que lidar com duas situações difíceis.
A verdade é que nestes últimos
dias tenho sofrido muito. Minha instabilidade emocional tem me corroído e pouco
desejo e energia de vida têm restado dessa confusão.
Os medos que cercam o processo de
contar são os mesmos que me motivam a ficar protegido numa bolha, fora do
contato social. Lamentavelmente isso não é possível, embora eu acredite que
seria muito mais fácil. O ser humano é, por natureza, um ser sociável.
Ela falou palavras bonitas que
lamentavelmente não fazem muito sentido pra mim. Vejo tantos relatos de pessoas
que começaram uma “nova vida”, buscaram viver intensamente cada instante.
Comigo tem sido diferente. Não consigo ver nada de positivo que não seja a
própria presença do vírus. Não me tornei uma pessoa melhor, não sou mais feliz,
não vivo intensamente, nem mesmo tenho tido desejo de viver.
A minha esperança é que essas
sensações sumam de minha vida em duas horas e eu tente prosseguir a sobrevida, como lamentavelmente tem
sido cada letra dessa palavra. Amanhã talvez a tristeza volte e o blog continua
como válvula de escape. Enquanto houver sobrevida
há esperança. Esperança no tempo, "compositor de destinos"!