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quarta-feira

Contando tempo

Sempre que me proponho a contar para alguém próximo a sorologia, fica um sentimento muito ruim. Esse sentimento dura alguns dias e é como se eu tivesse que lidar novamente com um processo de descoberta. A descoberta do outro.
É sempre difícil, não importa a situação, falar sobre o HIV e questões relativas à contaminação.  Ontem falei para mais uma pessoa. Ultimamente ela tem sido a única pessoa, juntamente com minhas sobrinhas, que consegue me transmitir alguma motivação para viver. Sinto uma energia muito boa que vem da mesma. Compartilhei pensando que desta forma pudesse auxiliá-la a lidar com uma situação difícil. Grande engano... agora ela terá que lidar com duas situações difíceis.
A verdade é que nestes últimos dias tenho sofrido muito. Minha instabilidade emocional tem me corroído e pouco desejo e energia de vida têm restado dessa confusão.
Os medos que cercam o processo de contar são os mesmos que me motivam a ficar protegido numa bolha, fora do contato social. Lamentavelmente isso não é possível, embora eu acredite que seria muito mais fácil. O ser humano é, por natureza, um ser sociável.
Ela falou palavras bonitas que lamentavelmente não fazem muito sentido pra mim. Vejo tantos relatos de pessoas que começaram uma “nova vida”, buscaram viver intensamente cada instante. Comigo tem sido diferente. Não consigo ver nada de positivo que não seja a própria presença do vírus. Não me tornei uma pessoa melhor, não sou mais feliz, não vivo intensamente, nem mesmo tenho tido desejo de viver.
A minha esperança é que essas sensações sumam de minha vida em duas horas e eu tente prosseguir a sobrevida, como lamentavelmente tem sido cada letra dessa palavra. Amanhã talvez a tristeza volte e o blog continua como válvula de escape. Enquanto houver sobrevida esperança. Esperança no tempo, "compositor de destinos"!


Carta ao Amigo


Sei que a sua intenção ao conversar comigo ontem foi a de me deixar pró-ativo em relação a minhas atividades cotidianas e entendo seu ponto de vista. Mas as coisas não são tão simples quanto parecem.
Antes me pegava pensando em qual seria minha reação diante de um resultado como esse. Sempre era algo no sentido de manter a vida, seguir em frente... hoje não tenho certeza de minha opção. Estou muito confuso e nos últimos dias tenho pensado na morte. Não em suicídio, mas na morte. Tenho me sentido mal cada vez que me olho no espelho. Muito mal a ponto de hoje sair do trabalho bem mais cedo por não consegui pensar em nada. Sabe aquela cara de parede?? Pois é. Eu tava assim. Você pode pensar: “enfrente melhor, trabalhe, esqueça isso, nem tudo é isso...” Como pensar no trabalho se às vezes nem tenho vontade de viver. Confesso que isso ocorre às vezes, em alguns momentos, e que isso muda em questão de minutos e pode voltar com a mesma intensidade.
Não tenho vivido minha vida com esse sofrimento acima descrito; mas em alguns momentos (como agora) ele vem e me domina. Perco o controle sobre ele. Lembro que uma sensação parecida foi o luto da perda de um ente querido, em que fiquei anos sem nenhuma amizade, chorava do nada, etc.  
Não tente imaginar como é. Sinceramente, espero que você nunca saiba. Nunca senti uma sensação tão estranha em toda minha vida. Muitos medos passam como filme na minha cabeça. As vezes vêm todos eles juntos, como se fosse uma explosão de sentimentos ruins.
Fiquei mais mal com suas palavras percebendo um certo “estrelismo” em meu sofrimento ou em minha forma de agir, como se eu estivesse numa situação confortável para sofrer. Talvez esse pensamento tenha se dado em função da leitura desse blog ou sei lá.
Te peço para não tentar me analisar. Não tente entender coisas que eu mesmo não sou capaz de entender. Deixe isso para minha analista. Parabéns para os que passam por isso sem sentir o que to sentindo.
Sei que você tem a intenção de me ajudar buscando colocar meu pé no chão. Muito ajuda respeitando meu momento. Amigo, por favor, não converse comigo sobre isso mais. Esqueça que eu falei isso pra você. Quero viver esse sofrimento apenas na internet. É a forma que encontrei para continuar. Vou pedir ajuda se precisar.  
Normalmente, como você sabe, iria me calar e ocultar meus sentimentos ou me afastar de você temporariamente, mas optei fazer dessa forma. Esse blog concentra minha carga negativa (opa, uma palavra boa para um exame) e quero que tudo isso fique aqui. Me escreva um e-mail se quiser ou preferir, mas não fale mais comigo sobre isso, pelo menos por enquanto. Não tenho força para discutir e nem quero.
Te amo muito, tá!?

Um abraço e um beijo,