A solidão é o mais certo dos
sentimentos que sinto neste um ano de vivência com o HIV. Por mais que eu saiba que tenho
amigos e que também saiba que posso contar com algumas pessoas, insiste em
surgir a vontade de me isolar um pouco das pessoas e do mundo.
Por que há essa necessidade tão
grande da "não convivência"? O "não contato" com o outro implica necessariamente
num contato íntimo comigo. Não vejo a solidão com maus olhos. Penso que seja
uma estratégica psíquica de sobrevivência.
Não tenho compromisso com a
felicidade, nem com a tristeza. Às vezes a minha liberdade me aprisiona em
estágios de repetição da dor. Ser livre para ser só. Tenho uma resposta para
isso.
Penso que na troca com o outro
espero compreensão ou uma resolução para questões que não cabem ao outro
resolver e nem a mim. A mim cabe conviver. A resolução implica numa resposta pronta; ela não existe. Tento me reinventar.
O que mais dói é perceber que algumas pessoas não se reinventam. Inventam de reproduzir suas "mesmices".
Estrada na escolha, escolha na estrada.
Não há solução. Estaremos sempre diante dessa questão.
A receita ainda me irrita um
pouco. O bolo já queimou e não há muita coisa a se fazer. Definitivamente não
caibo nessa caixa, nem neste caixão.