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domingo

Sou, Li, Dão!


A solidão é o mais certo dos sentimentos que sinto neste um ano de vivência com o HIV. Por mais que eu saiba que tenho amigos e que também saiba que posso contar com algumas pessoas, insiste em surgir a vontade de me isolar um pouco das pessoas e do mundo.
Por que há essa necessidade tão grande da "não convivência"? O "não contato" com o outro implica necessariamente num contato íntimo comigo. Não vejo a solidão com maus olhos. Penso que seja uma estratégica psíquica de sobrevivência.
Não tenho compromisso com a felicidade, nem com a tristeza. Às vezes a minha liberdade me aprisiona em estágios de repetição da dor. Ser livre para ser só. Tenho uma resposta para isso.
Penso que na troca com o outro espero compreensão ou uma resolução para questões que não cabem ao outro resolver e nem a mim. A mim cabe conviver. A resolução implica numa resposta pronta; ela não existe. Tento me reinventar.  O que mais dói é perceber que algumas pessoas não se reinventam. Inventam de reproduzir suas "mesmices".
Estrada na escolha, escolha na estrada. Não há solução. Estaremos sempre diante dessa questão.
A receita ainda me irrita um pouco. O bolo já queimou e não há muita coisa a se fazer. Definitivamente não caibo nessa caixa, nem neste caixão.



terça-feira

Tempo



Tenho deixado a vida escrever a minha, mas também interajo com ela e me torno co-autor. Ouvi por aí que o tempo que dita o fim é também o tempo que cura.  O que me resta é criar um tempo pra mim.
Um tempo diferente de tudo que vivi. Afinal, não funciono mais no mesmo tempo. A intensidade de alguns sentimentos impõe uma nova relação com o mundo.
Sinto falta de algumas pessoas. Sinto falta da minha família, de compartilhar algo com minha irmã, com minha mãe de dividir um pouco do que sinto com pessoas que realmente sei que me amam.  Mas também sei que não é esse o tempo. No momento ainda to abalado e não consigo fazer muita coisa com o que fizeram de mim.
A vida tem me obrigado a pensar mais no HIV do que eu gostaria. Ele está em todos os lugares: nos rostos que vejo nas ruas, nos programas que conheço, no meu trabalho, na minha aula. Esse é o tempo que me deram.
A vida continua, assim como a morte e o tempo é só uma coisa que as separam. Esse momento de morte também me produz vida. Eu queria poder apoiar a todos que de alguma forma foram vítimas de alguma violência, independente da marca que deixaram.
Talvez a letra dessa música não tenha muito a ver, mas de alguma forma, talvez pelo tom de desespero ela tem representado muito o que sinto.
Deixo meu abraço a todos que sofrem em função de qualquer ato de violência humana. Me resta acreditar numa Justiça Divina... é o único conforto que tenho.