quarta-feira

Contando para o pais

Um dia após o Natal foi a data escolhida para mais um importante passo dessa vivência. Dessa vez resolvi concretizar o que no passado havia sido meu maior medo: falar para meus pais sobre a sorologia. 

Fomos para meu quarto e, todos de mãos dadas, mentalizamos muitas de energias positivas. Ainda estávamos tomados pelo espírito natalino e, embora meus pais não entendessem exatamente o motivo daquele momento, entraram nessa sintonia.

Em um determinado momento disse que queria falar algo muito importante e que precisava da força e do apoio deles para suportar o que viria. Tentei falar de uma forma que fosse menos dolorosa possível, mas as palavras não saíam de minha boca. Gaguejava e não conseguia. Até que minha irmã interrompeu: Fale logo!!!

Tomei coragem e disse: 

- Eu quero dizer pra vocês que eu tenho HIV.

Essa frase seguiu com alguns terríveis segundos de silêncio que mais pareciam horas, tamanha a intensidade do medo da reação deles. Minha mãe chorou e disse que não queria me perder. Mas logo o medo dela se transformou em curiosidade e apoio.

Fiquei muito impressionado com a forma como meu pai reagiu. Imaginei que ele fosse ter alguma reação negativa, mas ele apenas perguntava e esclarecia todas as suas dúvidas sobre essa situação. Expliquei passo a passo sobre como funciona a ação da medicação, o que é carga viral, CD4, a importância do tratamento.

Eu saí dessa conversa muito mais calmo. Foi como se tirasse toneladas de minhas costas – peso que carregava há mais de três anos. Senti a importância do amor e do carinho.

Hoje estou mais leve, mais pleno e forte. Tenho a convicção de que a revelação do HIV trará um amadurecimento importante para todos nós. Tenho a felicidade de ter uma família que me respeita e me ama.


A vontade de ser feliz, matou o monstro que eu alimentava, com tantos pensamentos que me aprisionavam. De agora em diante quero me jogar cada vez mais na vida. Tristeza tem fim sim, e felicidade pode ser sempre uma possibilidade. Chorando ou sorrindo - precisei, preciso e precisarei me permitir!




domingo

Lançamento - O SEGUNDO ARMÁRIO: diário de um jovem Soropositivo





No dia 01 de dezembro de 2014, Dia Mundial da Luta contra a AIDS, concretizo a realização de um grande desejo. Transformar esse blog em um livro. Esse sonho foi possível com a parceria estabelecida com a editora portuguesa Index Ebooks.

Abri mão dos direitos autorais e a editora não terá objetivos de lucro. Assim, conseguiremos deixar o ebook disponível gratuitamente para download na maioria dos aplicativos para essa finalidade.

Pretendo, com minha história, despertar para a importância do combate constante ao estigma e à discriminação - certamente mais letal que o HIV. Assim, espero que as pessoas possam desvendar, comigo, as vivências e descobertas da vida com HIV. Convido meus amigos e amigas para postarem em seus blogs qualquer mensagem alusiva ao 01 de dezembro - Dia Mundial da Luta contra a AIDS, se possível com o link do ebook: http://www.indexebooks.com/armario.html

Curta, também, a fan page do livro -  http://www.facebook.com/osegundoarmario
Hoje, confesso, bate um frio na barriga, mas também o desejo de um mundo melhor para tod@S. Por mais respeito às diversidades!  A luta continua.


quinta-feira

O outro e o medo



Utilizo todas as tecnologias possíveis de socialização, e, quem sabe, dessa forma poder ampliar a possibilidade de conhecer pessoas interessantes. Já tô no Grindr, Scruff, Tinder... Confesso que os dois primeiros apresentam um cunho mais, digamos, picante. Tá bom, é sexual mesmo Cláudia! Mas com o Tinder tem sido diferente.
Comecei a conhecer pessoas interessantes, que mostram sua face, e não apenas faces do corpo. No tinder tenho encontrado pessoas mais interessantes. Talvez seja por sorte. Mas ainda acredito que as pessoas nesse aplicativo não buscam apenas sexo. Possibilitam um intercâmbio maior. Se mostram mais, em muitos sentidos. Fora que o fato de ter que entregar o coração para iniciar a comunicação é algo pra lá de fofo, né?!
Recentemente encontrei duas pessoas que teclava pelo Tinder. Fiz uma opção arriscada: quando sinto que há interesse mútuo, falo do HIV. Faço isso porque não tenho tido vontade de sexo por sexo; nem mesmo ficada por ficada. Com a proximidade dos 30, um amadurecimento que impera a construção de relações que superam duas horas de contato sexual.
O primeiro encontrei numa festa e ele chegou de surpresa. Eu já havia tomado algumas taças de espumante quando avisto o mesmo e o chamo pelo nome (uma grande vantagem do Tinder). Conversamos bastante e senti que o papo estava fluindo. Fiquei com medo de sua reação, mas ainda assim falei com ele sobre o HIV, antes mesmo do primeiro beijo. Eu não acreditei quando ouvi: “mas não pega por beijo, né?!” (Putz, isso vindo de um cara inteligente e que eu acreditava ser informado). Eu prontamente respondi que não e em seguida nos beijamos. Logo depois ele me disse que ele nunca conseguiria usar camisinha com seus namorados. Eu respondi que pensando dessa forma ele teria maior possibilidade de contrair diversas infecções sexualmente transmissíveis, inclusive o HIV. Dias depois permanecemos em contato via facebook e tinder; foi perceptível o distanciamento a la “não tenho preconceito; serve pra ser meu amigo, mas namorado não”.
O segundo encontrei num café num famoso shopping do Rio. Duas horas de uma agradável conversa e chegou a hora de ir embora. Fiquei tímido, talvez pela ausência do álcool, bebida que, por escolha pessoal, tenho feito abstinência nas últimas semanas. De repente, ainda na escada rolante, percebo que tive um beijo roubado. Depois mais outros dois até o caminho do meu ônibus. Pensei: “esse fugiu da minha regra; ainda não falei do HIV”. Continuamos em contato via Scruff, por onde resolvi falar do vírus. A resposta foi: “você deve saber dos meios de prevenção, né?!”. Seguimos até hoje em contato, um pouco menos intenso e algo (penso) sendo mais encaminhado para uma amizade.  
Me pego pensando: “E agora? Como agir com os próximos possíveis namorados?” Como a escolha de falar do vírus ocorre após um “certo” conhecimento da pessoa, penso em continuar um pouco mais por esse caminho. Eu vou seguir o som!


sábado

(Des)Construção Interna



Essa semana começou terrível e terminou mal. Mas penso que nada ocorre por acaso, existe um propósito que tem se concretizado aos poucos em minha vida: minha espiritualização.
No início da semana passei uma grande violência, e levaram todos meus pertences. A memória desse evento é torturante demais, algo que não entrarei em detalhes. Felizmente o resultado foi apenas algumas perdas materiais, nada que não pudesse ser resolvido durante a semana em processos chatos e burocráticos (hospital, DETRAN, delegacia...). Esse evento serviu para continuar um processo de espiritualização que eu havia resgatado com o Daime.
Após poucos dias de muito medo e terror mental, resolvi voltar a sair e tentar enfrentar os pensamentos automáticos que insistiam em me amedrontar quando pensava em “rua” – compreensível em casos de estresse como o que passei.
Pois bem, acabei encontrando com uma criatura com uma energia péssima, que, em cada comportamento, exalava sentimentos ruins como: inveja, ódio, competição, etc. Após algumas ofensas, uma se relacionou ao HIV, tentando afastar um possível “ficante” de mim. Tentativa frustrada, considerando que o papo continuou muito bom. Saí da festa, muito agradecido. Estava em execução o “Livrai-me de todo mal, amém!”.
Hoje, no final de uma semana muito carregada e sofrida, me sinto mais forte. A vida não cansa de me ensinar a crescer através do sofrimento. Quando penso que estou no meu limite, percebo o quão forte tenho sido. Sou grato ao Universo, à Deus (ou boas energias, como quiserem chamar) por me permitir essa evolução.
Longe de querer me institucionalizar em alguma religião específica, me sinto em paz e cercado de boas energias. Elas podem vir de uma canção, oração, uma pessoa querida, um amigo ateu, minha família, amigos... Quero pessoas que possam compartilhar a beleza da vida e a troca de boas vibrações. Tenho sede de luz, vida, bons papos. Que a próxima semana seja de muita calma e muita tranquilidade!


Calma e Tranquilidade - Deva Premal

segunda-feira

O Diário do Segundo Armário

Hoje decidi esquecer (ou melhor, apagar o título) o NinguémPorAí. Calma, gente! Não se trata de apagar o blog. Mas acho que já era hora de alterar esse nome. Ele já não traduzia mais nada sobre mim; embora estará sempre (de alguma forma) presente no histórico.

O Diário do Segundo Armário, reflete de forma mais clara minha vivência, que resolvi compartilhar nesse espaço. Na verdade, esse é o título do livro que escrevi, com base nas experiências aqui relatadas. Após quase um ano de processos chatos (registros, direitos autorais, contato com editoras), resolvi me antecipar na mudança desse título, e por um simples motivo: ele (o Ninguemporai), assim como o Feliciano (que já foi tarde!), não me representa!

Tive um bom feedback de editoras. Embora ainda tenha que fazer alguns ajustes (que se refere mais  escolha dos textos), sem modificar o conteúdo. Em breve compartilharei com vocês.

Gostaria muito que esse livro fosse universalizado, via algum projeto social, que alcançasse o público LGBT com menor recurso financeiro. Mas infelizmente minhas atuais condições financeiras não me permitem financiar um projeto deste porte. Se você tiver alguma ideia, será muito bem vinda! ;)

Pé direito (sempre e também) em 2014!!! Ano (Dia, Hora) novo, vida nova!!

Beijos e Abraços!

sábado

Um email para Dra. Leblon

Há dois anos e alguns meses atrás me vi desesperado, com uma das piores notícias que tive em minha vida. Meu mundo desabou. Buscava explicações, considerando que nunca transava sem camisinha. No auge do meu diagnóstico "HIV positivo", tive a grande sorte de encontrar uma médica, com ampla bagagem, experiência e sempre atualizada.
Hoje me sinto muito melhor, mais vivo, e valorizando cada dia mais minha vida. Luto para que outras pessoas possam ter o atendimento que eu tive ao te encontrar.
Hoje me esforço para tentar ajudar aqueles que passam pela mesma situação que eu passei. Acho que é uma forma de retribuir o que a vida me deu - capacidade de crescer com esse diagnóstico. Alguns chegam através do meu blog (que comecei a escrever com três meses de descoberta), outros meios e grupos que faço parte voluntariamente. Resgatei a humanização de minha própria vida.
Quero que saiba que você faz a diferença na vida de muitas pessoas, como fez na minha; resgata o valor dela, em meio ao caos que o diagnóstico da doença mais estigmatizada do século nos joga. Luto e torço para que o SUS tenha muitas "Marilias".
Como sabes, recentemente tive um dos piores atendimentos de minha vida com um proctologista... Me deixou marcas não apenas físicas, mas principalmente emocionais, chegando ao fim do meu namoro, pois até hoje não consigo fazer sexo sem me lembrar daquele atendimento. Prova de que uma conduta ética faz toda a diferença na vida de um paciente.
Olho pra trás e vejo como evolui, em muitos campos de minha vida. Quero te agradecer por ter feito parte de minha história.
Te agradeço, principalmente, por ter me auxiliado a resgatar o valor de minha vida.
Desejo um Natal maravilhoso, e um 2014 com muita luz, paz e conquistas. Que você possa sempre prosseguir com essa luz que conduz um acolhimento, no sentido literal da palavra.

Um forte abraço!

Essa postagem é dedicada à Dra. Marília de Abreu Silva ("Dra. Leblon").

domingo

A Experiência do Acolhimento

Atualmente tenho feito mais acolhimentos (grande parte virtuais) de pessoas vivendo e convivendo com HIV. A sensação de poder ajudar o outro no momento de desespero, e quando tudo parece realmente perdido, é indescritível. De alguma forma, todos temos a capacidade de auxiliar no enfrentamento de preconceitos internos que se manifestam nesse momento. 
Embora, no campo da saúde coletiva, essa palavra descreva o processo de recepção do usuário do serviço de saúde por um profissional, eu não vejo outra melhor pra descrever o que quero dizer: Acolher.
v.t. Receber alguém bem ou mal, hospedar, agasalhar: acolheu-me de braços abertos.
Aceitar, receber: acolheu com agrado as nossas sugestões.
V.pr. Abrigar-se, refugiar-se: acolheu-se à sombra da religião.
Pra ser sincero, não me canso de me emocionar com as mais variadas histórias, todas carregadas de singularidades, dor e surpresas. Muitas vezes choro junto, mas, obviamente, um choro de superação, de vida. 
Depois de algum tempo nessa experiência - cultivando verdadeiros amigos - ouso fornecer algumas sugestões para que seu acolhimento seja bem sucedido:
1) Saiba ouvir - É necessário escutar a dor e deixá-la vir à tona;
2) Não ignore os sentimentos alheios. Muitas vezes a revolta e a discussão fazem parte de um momento único na vida do outro - não leve nada pro lado pessoal;
3) Filtre seus julgamentos e suas crenças pessoais; acolher exige abraçar a emoção alheia sem preconceitos;
4) Utilize informações com referências confiáveis - o estudo e a pesquisa devem ser prioridades;
5) Reforce a importância da pessoa recorrer a profissionais (psicólogos, médicos, etc) - seu acolhimento, embora seja muito importante, nunca substituirá a intervenção técnica;
6) Assuma seus limites, informando o desconhecimento de questões que possam surgir;
7) Forneça alguma forma de contato emergencial (face, whatsapp, email, etc) - uma ligação poderá fazer toda diferença;
8) Cuidado com "flertes e cantadas" - isso pode afastar quem mais precisa de seu apoio;
9) Abra seu coração para amar o outro como amigo/irmão - a sensação de segurança, apoio e de que "não está sozinho" viabiliza o resgate da alta auto-estima;
Na verdade, esse processo é um "ganha-ganha" mútuo. Eu me sinto transformado com o outro; e isso me motiva cada vez mais. 
Agora é só participar dessa corrente do bem! Dedico essa postagem à todos que fazem a diferença na vida de outros, e outros que fazem a diferença na vida de todos!