Um dia após o Natal foi a data escolhida para mais um
importante passo dessa vivência. Dessa vez resolvi concretizar o que no passado
havia sido meu maior medo: falar para meus pais sobre a sorologia.
Fomos para meu quarto e, todos de mãos dadas, mentalizamos
muitas de energias positivas. Ainda estávamos tomados pelo espírito natalino e,
embora meus pais não entendessem exatamente o motivo daquele momento, entraram
nessa sintonia.
Em um determinado momento disse que queria falar algo muito
importante e que precisava da força e do apoio deles para suportar o que viria.
Tentei falar de uma forma que fosse menos dolorosa possível, mas as palavras
não saíam de minha boca. Gaguejava e não conseguia. Até que minha irmã
interrompeu: Fale logo!!!
Tomei coragem e disse:
- Eu quero dizer pra vocês que eu tenho HIV.
Essa frase seguiu com alguns terríveis segundos de silêncio
que mais pareciam horas, tamanha a intensidade do medo da reação deles. Minha
mãe chorou e disse que não queria me perder. Mas logo o medo dela se
transformou em curiosidade e apoio.
Fiquei muito impressionado com a forma como meu pai reagiu.
Imaginei que ele fosse ter alguma reação negativa, mas ele apenas perguntava e
esclarecia todas as suas dúvidas sobre essa situação. Expliquei passo a passo
sobre como funciona a ação da medicação, o que é carga viral, CD4, a
importância do tratamento.
Eu saí dessa conversa muito mais calmo. Foi como se tirasse
toneladas de minhas costas – peso que carregava há mais de três anos. Senti a
importância do amor e do carinho.
Hoje estou mais leve, mais pleno e forte. Tenho a convicção
de que a revelação do HIV trará um amadurecimento importante para todos nós.
Tenho a felicidade de ter uma família que me respeita e me ama.
A vontade de ser feliz, matou o monstro que eu alimentava,
com tantos pensamentos que me aprisionavam. De agora em diante quero me jogar
cada vez mais na vida. Tristeza tem fim sim, e felicidade pode ser sempre uma
possibilidade. Chorando ou sorrindo - precisei, preciso e precisarei me
permitir!
