Acordei, tomei café com minha família, um pouco de papo e peguei a bicicleta. Sabe aquela Caloi Barra Forte - a preferida dos idosos (e também a minha).
Pedalei pelas principais ruas da cidade que nasci. Exercitar faz bem a saúde. Observei as pobrezas que gritavam em suas diversas formas de manifestação ao meu redor. Percebi uma espécie de escravidão legalizada. Negros em carroças com animais, animais em carroça com brancos pobres, mendigos caminhando pelas calçadas.
Pedalando percebi que não quero esquecer nunca minha raiz. Felizmente tive a sorte de não ser afetado pela pobreza centenária de milhares de conterrâneos. Engolidos pela liberdade que os escravizam ainda mais. Princesa Izabel não passou por aqui.
Olhei para o céu... sempre achei lindo o céu de minha cidade. Talvez uma espécie de refúgio inconsciente... só “Ele” mesmo pode dar conta. Fiações e fios embolados compunham o cenário visto entre meu olho e o céu.
Pedalando vi que os escravos se multiplicavam. Crianças nas creches, sabe lá em que condições, as visíveis pareciam demarcar o futuro de cada uma. Haja resiliência e superação para que entre elas exista um Luis Inácio.
Passei por escola de importância nacional, curiosamente um carroceiro adolescente parado na porta. O que será que ele estava fazendo ali? Estudando? Minha inocência não é mais a mesma. Trabalhando pros “Barões e Baronesas” que ali adquiriam conhecimento.
Pedalando vi que minha raiz está podre; apenas mais uma cidade sulamericana que não é cartão postal do Brasil. Pedalando... pedalando... pedalando.