Saí de casa atrasado. Corri, meio desnorteado pela cidade, numa dúvida se iria de ônibus ou metrô. Queria evitar esse contato de qualquer maneira, mas já estava fugindo, em viagens, compromissos, solicitações de mais exames. Nada me faria ver o que estava estampado desde a primeira consulta. No fundo acho que tudo isso me deu um tempo ideal para elaborar a notícia.
Segui em direção ao metrô, mas no meio do caminho subi num ônibus. Me senti muito confuso e meio desnorteado, talvez seja pela mudança de fuso horário, talvez seja pela mudança de realidade.
Encontrar Dra. Leblon hoje foi mais um tapa na minha cara. Minha saúde está ótima, nenhum sintoma ou qualquer coisa que indique doença oportunista. Todos os exames perfeitos, mas um se manteve na mesma situação: CD4.
O que isso quer dizer? Sai da minha cabeça e entra na minha vida um dos meus maiores medos: o início da medicação.
Em meio a compras, fotos e momentos tão perfeitos, a morte de uma aliada: a esperança de ser fazer parte da pequena porcentagem de soropositivos que não necessitam da medicação.
Saio da condição de portador de HIV para uma pessoa com AIDS. Serei notificado ao Ministério da Saúde e começarei a medicação. Tudo o que eu não queria que acontecesse agora, mas acho que não tenho muita escolha. Foi muito triste informar o nome da minha mãe inteiro para ser cadastrado. Não queria que ela participasse disso. Ela não tem nada a ver com minhas escolhas, com meu passado, com meus erros.
Um sentimento terrível aparece... a culpa. Até hoje não me culpei, nem acredito que essa tenha sido uma escolha. O fato é que ninguém além de mim é responsável pelos meus atos, inclusives sexuais.
Serei escravo desses medicamentos até o dia da minha morte. Aposto muito na possibilidade de não ter tantos efeitos colaterais. No ringue da minha vida, a esperança e a realidade ora se confrontam, ora são aliadas. Nessa novela não sou o único autor. Espero ter cada vez mais força pra superar, levantar, cair, chorar, sorrir. Hoje é só mais um dia triste.