Tenho conseguido estudar pouco, pois para isso tenho que ficar sozinho. Mas quando fico sozinho me encontro com o HIV. O contato com amigos me faz bem, me faz esquecer do peso que o HIV causa em nossa cabeça. Não é o peso da doença em si, mas de perspectivas de futuro, como bem já falou o Mutante em comentários anteriores.
Ué, mas o futuro não é sempre indeterminado? O HIV demarca algum futuro para alguém? Alguém tem certeza das possíveis oportunistas que podem se fazer presente? Alguém está certo sobre os preconceitos que poderá vir passar? E as mudanças corporais? Questões tantas vezes abordadas aqui.
Nada está certo quando se fala de HIV. As possibilidades e os medos são muito mais reflexos de nossas construções coletivas e sociais. Até que ponto esse medo tem ligação com o real? E até que ponto são criações de nossa cabecinha complexa? Limite difícil de definir.
O fato é que agimos de acordo com a forma que agem conosco, ou da forma que cremos agirem conosco. Percebo cada vez mais que o preconceito em relação ao HIV está muito dentro de mim. É claro que ele também está nas outras pessoas, e as vezes vem de casa como bem explicou o Positivo Sim aqui. As vezes me pego olhando para minha mão (infectada), fio de cabelo (infectado), rosto (soropositivo), unha (sororeagente). Puta que pariu! Eu sou mais do que o vírus que habita em mim. Preciso colocar a doença entre parênteses para que eu me veja como sujeito.
Percebo como a sociedade foi e é cruel com pessoas positivas. Há uma capacidade incrível de olhar para a pessoa e ver o vírus. Em se tratando do meio gay a situação piora. Quem nunca ouviu alguém falando que “fulano” está “doce”, com a “maldita”, com a “tia”, “veneno no sangue” . Clicando aqui você poderá acessar um interessante blog que fala dessas gírias.
Um passo importante para conviver é recriar seus próprios rótulos e redefinir suas regras e leis (insight obtido com a ajuda do blog do Eros. Aproveitando a máxima da propaganda da Sprite: “Imagem não é nada, sede é tudo. Obedeça sua sede!”.
Como já falei sobre parte de minha "cura" aqui, finalizo essa postagem continuando esse processo.
“Eu não vou mudar não
Eu vou ficar são
Mesmo se for só
Não vou ceder
Deus vai dar aval sim
O mal vai ter fim
E no final assim calado eu sei
Que vou ser coroado rei de mim”
Marcelo Camelo (Los Hermanos)